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  • Foto do escritorRev. Luiz Henrique

Lutando contra a cobiça

John Piper, em seu livro ‘Lutando contra a incredulidade’ (Editora Fiel), diz que

“Cobiça é desejar tanto algo, que você perde o seu contentamento em Deus. O oposto da cobiça é o contentamento em Deus”.

O homem em seu estado original no Éden, tinha tudo o que precisava para se alegrar em Deus: (1) sua essência santacriado a imagem e semelhança de Deus, (2) sua capacidade de liderarcomo ser criado a imagem de Deus ele governar com autoridade e prudência, (3) o próprio Édenum jardim repleto de tudo o que é muito e agradável, (4) a sua auxiliadora que o completava – alguém criado a partir de Adão que lhe fosse idônea; e muito mais.

Havia contentamento em tudo, pois tudo o que foi criado correspondia ao seu Criador. Mas, o pecado entrou em cena porque, este mesmo homem, começou a desejar o que não lhe foi dado. O homem de hoje continua a desejar o que não é seu. Continua a se afundar no abismo das ambições egoístas e ímpias, que o levam ao assassinato e tudo o mais. O homem de hoje precisa de Deus; precisa mais uma vez olhar para o seu Criador; precisa compreender onde encontrar o seu verdadeiro contentamento, aquele que o levará a plenitude de alegria.

Quando penso sobre o contentamento que devemos viver e desfrutar, logo me vem à mente três coisas importantes sobre este tema. Vejamos:


O contentamento no Éden: um estado anterior a Queda.


As Escrituras Sagradas em suas primeiras páginas registram a obra da criação de Deus. Há, na descrição da criação de todas as coisas, não apenas o apontamento de que o Ser de Deus é o responsável destas as coisas virem a existência, como também o único poderoso, inteligente e capaz de fazer tais coisas. Mas, o que me chama atenção nesta narrativa é uma palavrinha que vai seguindo o relato da criação: em cada etapa, o texto diz “...e viu Deus que isso era bom” – Gn 1.3, 9, 12, 21, 25, 31.

Esta não é uma declaração sem importância! Ela reflete a beleza e plenitude de toda a criação de Deus; além de expor o contentamento de Deus em sua criação. Tudo ficou bom! A perfeição de Deus foi refletida em sua criação e contemplada e aprovada por ele mesmo. Aqui já aprendemos uma lição extremamente importante de que, o mais interessado em que tudo o que foi criado reflita esplendor e glória, é Deus; porque, ao fazer isso, Ele mesmo é glorificado, uma vez que é a sua própria glória que está sendo refletida e não do objeto criado.

Isso é tão verdade que houve um momento no curso da criação que Deus disse: “...Não é bom que o homem esteja só...” – Gn 2.18. Deus não ficou satisfeito em ver a sua criação que melhor reflete o seu Ser, sozinho; até mesmo o próprio Deus, embora um em essência, subsiste em três pessoas que se relacionam perfeitamente.

O “...não é bom que o homem esteja só...” logo se transforma em “Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom...” – Gn 1.31. Vemos aqui, mais uma vez, a importância de a criação refletir a glória e esplendor de Deus; com isso, Ele é glorificado e seu contentamento é manifestado em sua Criação. Mas, não vemos nesta passagem apenas Deus tendo contentamento; o homem também participa desta plenitude de alegria. Deus abençoou o homem de tal forma que ele mesmo faz uma declaração que reflete sua alegria no Senhor: “E disse o homem: Esta, afinal, é osso dos meus ossos e carne da minha carne; chamar-se-á varoa, porquanto do varão foi tomada” – Gn 2.23. Será se ele estava contente?

Outra passagem que reflete isso é Gn 2.25 que diz: “Ora, um e outro, o homem e sua mulher, estavam nus e não se envergonhavam”. A palavra utilizada no texto para ‘envergonhar’ dá a ideia de alguém estar ‘desapontado’; o antônimo de desapontado é satisfeito/contente. Em outras palavras, o texto diz que homem e mulher estavam satisfeitos na condição que estavam.

contentamento em Deus – por causa da perfeição de sua criação – e no homem, ao desfrutar desta plenitude de alegria em seu Criador.

O contentamento na Queda: um estado de miséria e profundo descontentamento.


Com a Queda do homem, as coisas tomaram um rumo desastroso; e tudo começou porque o homem passou a buscar o seu contentamento em outra fonte; e é isso o que acontece com o homem quando deixa de buscar sua alegria no Senhor: um rumo desastroso. Praticamente, o pecado original alimentou uma cobiça perigosa no homem, que o levou há um estado de miséria e profundo descontentamento em tudo, inclusive com ele mesmo.

A palavra ‘cobiçar’ descrita no décimo mandamento, vem de uma palavra em hebraico (חמד chamad) que significa: ter prazer em ou se deliciar em. Basicamente, ao comer do fruto proibido, Adão e sua esposa estavam buscando ter prazer em algo que Deus não os tinha dado. Eles estavam deixando de lado a presença de Deus e tudo o que por ele foi criado, por algo que, aos seus olhos, mais lhe deu prazer.

E o que lhes deu mais prazer do que permanecer no estado de intimidade e perfeição ao que foram criados? Este ponto é muito importante que guardemos em nosso coração. Adão e Eva abandonaram seu estado de bênção em plena alegria diante do Senhor e tudo o que ele fez, por um ‘possível conhecimento’ que atrairia morte para si mesmos. Estavam tão cegos diante da necessidade de buscar um contentamento por eles mesmo, que não observaram os prejuízos que este intento atrairia para si.

É interessante que John Piper comece seu quinto capítulo do livro ‘Lutando contra a incredulidade’ (Editora Fiel), falando exatamente sobre a incredulidade como fonte para todo pecado. Ele diz: “A forma de combater o pecado em nossas vidas é lutar contra a nossa inclinação à incredulidade” (2014, pág. 91). A maioria dos teólogos reformados entendem que o pecado original consistiu na incredulidade de Adão. Foi quando ele deixou de acreditar no que Deus disse e passou a acreditar no que o diabo disse que todos os outros pecados surgiram.

A cobiça passou a coexistir com o homem em estado de miséria por causa de seu pecado diante de Deus. Por onde quer que ele fosse, seus olhos contemplariam coisas desta terra; mas, diferente do Éden – onde tudo refletia a glória de Deus – a terra também foi amaldiçoada e agora tudo reflete o caos e desordem causados pelo pecado do homem. Por mais que o homem cobice coisas à procura de um contentamento, tudo o que encontrará é desordem, escuridão, frustrações e descontentamento.

Alguém disse certa vez que a cobiça é um adversário oportunista e mortal que captura o coração, altera as afeições, ocupa a mente e destrói uma vida. Onde há paz, ela traz hostilidade; onde há amor, ela suscita divisão; e onde há contentamento, ela gera reclamação. A cobiça leva ao abandono do amor por Deus e leva o indivíduo a odiar o seu próximo. Ela empurra o coração no poço dos interesses egoístas e no atoleiro e no lamaçal do orgulho e da inveja, da calúnia, do furto, do adultério, do homicídio, da desonra e da idolatria – Êx 20.3-17.

Esse pecado de incredulidade não trouxe apenas consequências no relacionamento do homem com Deus, mas também com toda a criação e seus semelhantes, inclusive com ele mesmo. O homem passa a buscar os seus próprios interesses. Começa a seguir seus próprios caminhos. Por causa da cegueira espiritual, ele é incapaz de ver o abismo em sua frente. É o que diz Paulo aos Efésios em relação ao homem estar morto em seus delitos e pecados – Ef 2.1; foi o que disse Deus à Adão que certamente morreria se comece do fruto do conhecimento do bem e do mal – Gn 2.17.

John Piper (2014, pág. 94) também diz que “Cobiçar é desejar tanto algo, que você perde o seu contentamento em Deus. O oposto da cobiça é o contentamento em Deus”. Portanto, se você está contente em Deus, então não cobiçará nada que desaponte esse relacionamento. Mas, se seu contentamento não está em Deus, então você cobiçará outras coisas fora deste relacionamento. É exatamente isso que o homem em pecado tem feito até então. Ele busca prazer em outras coisas que não seja em Deus. Daí, por conta desta ânsia por um prazer oriundo de outra fonte, ele é capaz de matar, adulterar, furtar, desonrar, mentir e prestar culto a deuses estranhos à procura de satisfazer os seus desejos – e esses, manchados pelo pecado.

É por esta razão que o homem passa a experimentar a ira de Deus. Antes, a presença do Senhor era sinônimo de plenitude de alegria; agora, por causa do pecado, ao ouvir a voz do Senhor Deus, que andava no jardim pela viração do dia, [eles] esconderam-se da presença do Senhor Deus, o homem e sua mulher – Gn 3.8. O Deus se revela diretamente ao homem, agora manifesta sua ira e condenação. Com diz Paulo aos romanos: “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens...” – Rm 1.18.


O contentamento em Cristo: um estado de plenitude de alegria.


Nem tudo está perdido para o homem. Existe um a luz no fim do túnel; e está luz é Cristo. Enquanto nós cobiçamos e corremos atrás daquilo que nos dá prazer, Cristo é aquele que converte nossos pés dos caminhos tortuosos da vida; ele é aquele que tira a as escamas de nossos olhos para vermos nossa iniquidade e contemplamos nosso Senhor; ele quebranta nosso coração endurecido pelas motivações egoístas e equivocadas, para que sejamos rendidos ao poder e graça de Deus. Cristo é nossa verdadeira fonte de alegria e prazer – não é atoa que os que estão em Cristo são chamados de bem-aventurados.

Deus, em sua bendita graça, vem restaurando no homem a sua alegria. Mas, o principal motivo para isso é a sua própria glória – a mesma ideia da criação. Só há plenitude de alegria por há um Deus criador, sustentador e restaurador de todas as coisas. No Éden, tudo refletia essa glória de Deus, por isso ele disse que “...tudo ficou muito bom” – Gn 1.31.

Quando lemos a Pergunta 1 do Breve Catecismo: Qual é o fim principal do homem? A resposta é que, o fim principal do homem é glorificar a Deus, e alegrar-se nele para sempre. Deus é glorificado em sua criação; e, sua criação recebe deste contentamento, se alegrando nele. É bem parecido com o que diz o Salmo 16.11 “Tu me farás ver os caminhos da vida; na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra, delícias perpetuamente”.

Essa plenitude de alegria só é encontrada no Filho de Deus, que tem as palavras da vida eterna – Jo 6.68. O que o homem falhou em sua busca, Cristo triunfa. O que o homem não encontrou por ele mesmo, Cristo vem trazer: gozo e paz. Quanto mais valorizamos Cristo, menos atribuímos valor imoderado às coisas terrenas. Quanto mais desejamos Cristo, menos ansiamos pelas coisas deste mundo.

É por esta razão que o contentamento não é algo que corremos para alcançar, mas algo em que descansamos. O apóstolo Paulo disse: “Aprendi a viver contente em toda e qualquer situação” – Fp 4.11b. Paulo cria em um Deus soberano que governa os céus e a terra, bem como confiava nele. Ele sabia que a providência de Deus proveria para as suas necessidades. O que quer que ele possuísse era suficiente, então ele podia descansar contente.

É importante a recomendação que Paulo dá aos Colossenses, quando diz: “Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus. Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra – Cl 3:1-2.


Conclusão


Aquela beleza e perfeição desfrutada no Éden pelo homem, resultará em plenitude de alegria quando Cristo vier buscar a sua igreja. O apóstolo João diz que “...ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é” – 1Jo 3.2. Desta forma, estamos em plena preparação para este grande dia. Mas, só será possível contemplar com alegria e pleno prazer este dia, os que em Cristo estão sendo restaurados. Aqueles que estão reaprendendo a se contentar na presença de seu Senhor e o que Ele nos oferece.


De que maneira podemos ter contentamento nesta vida?

  • Confiando em Deus

A primeira coisa a se fazer é ter fé no Senhor; e Ele mesmo, por meio da pregação do evangelho, já providenciou o meio desta fé ser uma realidade em nós. Confiar em Deus significa acreditar que Ele é o Criador e Senhor de toda a criação. Significa que Ele é capaz de nos cercar de tudo o que precisamos e nos capacitar a perseverar até o fim;

  • Ser grato a Deus

A gratidão leva a vida cristã para longe da perigosa areia movediça do descontentamento. É difícil estar contente em todas as circunstâncias se a gratidão não habita em nossos corações. Nós desejamos agradecer a Deus por aquilo que temos recebido e aquilo que ele deu. “Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto” (Tiago 1.17). Portanto, nós não apenas nos alegramos naquilo que pessoalmente recebemos, mas também nas boas dádivas que o Senhor concedeu a outros.

  • Vivendo para a glória de Deus

Paulo diz que “quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus”. Tudo o que fizermos deve convergir em glória a Deus; daí, Ele será glorificado e exaltado, e nós receberemos de seu favor.

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